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Quinta, 13 de novembro de 2014, 16h09 | Tamanho do texto: A- A+

ARTIGO

Morre Manoel de Barros, aos 97 anos de vivência, escrevivência e de muitos vôos fora da asa!

MARINEI ALMEIDA
Unemat

Manoel Barros morreu hoje, quinta feira, 13 de novembro de 2014, em um hospital em Campo Grande, MS. Com 97 anos de idade, o poeta estava internado há duas semanas. No dia 24 de outubro passou por uma cirurgia por causa de uma obstrução intestinal. As causas da morte não foram ainda reveladas. 

 

Manoel Wenceslau Leite de Barros, nascido em Cuiabá a 19 de dezembro de 1916, casado com Stella, viveu os primeiros anos em Corumbá, MS, “entre formigas”, em “uma infância livre e sem comparamentos”. Estudou Direito no Rio de Janeiro, profissão que não exerceu. Em Nova York, onde morou por um ano, fez curso sobre cinema e pintura no Museu de Arte Moderna. Mas a maior parte de sua vida passou em sua fazenda, de volta ao Mato Grosso do Sul, de onde raramente saía ou dava entrevistas. 

 

Dentre os grandes nomes do mundo artístico que ele admirava constam os nomes de Rimbaud, Guimarães Rosa – este, amigo pessoal, Charles Chaplin, Federico Fellini, Miró, Van Gogh, Akira Kurosawa, Luís Buñuel, dentre outros, e sobretudo os de Bernardo da Mata, Cabeludinho, Dona Maria, Maria-pelego-preto, Mário pega-sapo, Antoninha-me-leva, o andarilho Andaleço, Dona Emília do Clube de futebol no Porto de Cuiabá, o avô, o menino, as formigas, o caramujo, a lesma, a árvore, dentre outros seres e “coisas sem importância” que a “nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima”, e que compõem a matéria de sua poesia.

 

 


MAS COMO PODE UM GRANDE POETA MORRER?
No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal:
Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro.
Manoel de Barros

 

 


É assim que ele, o grande Manoel de Barros, nos autoriza pensar: o dia envelheceu e o grande poeta das coisas inventadas, das infâncias, do vôo fora da asa, das crianças e dos bichos curvou-se para dentro de seu recolhimento, para dentro de sua casca de caramujo. Pois, o poeta nunca morre. Manoel de Barros continua vivo por meio de seus mais de 27 livros publicados e festejados em uma carreira cuja duração de mais de 77 anos assinala a construção de mundos por meio da linguagem poética.

 

Das lições deste imortal poeta (desculpem-me a redundância, já que todo grande poeta é imortal) nos fica, dentre outras, a de medir a importância de uma coisa, já
..que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc.
... a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.
Manoel de Barros

 

 

É assim que a vida e obra deste grande poeta devem ser medidas: pelo encantamento!

 

 
2014 foi o ano escolhido para outros grandes nomes da literatura e da vida se recolherem. Nomes como Nelson Mandela, o grande homem da humanidade, Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves – grandes nomes da literatura brasileira - e o grande poeta de Moçambique Eduardo White, entre outros artistas. Certamente é o ano que os deuses escolheram para colher estrelas que enfeitem o grande céu que cobre os homens e as coisas.

 

 

Olhemos todos os dias para o céu e, como fez o Macunaíma, de Mário de Andrade, apreciemos o brilho dessas estrelas que certamente nos cobrirá, apreciemos a luz que certamente nos consolará e reforçará nossa vida, mísera e finita vida humana, que pelo brilho de seus fachos de luz segue pulsante por meio de suas obras, eternamente vivas sobre e em nós.

 

 


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
Manoel de Barros

Dá-lhes Manoel de Barros, dá-llhes bugre velho, dá-lhes eterna criança!


Marinei Almeida é doutora em Estudos Literários e professora de Literatura e Assessora de Cultura da Pró-reitoria de Extensão e Cultura da Unemat.

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