IDIOMA

 
 
 
Serviços de A a Z
Terça, 17 de junho de 2014, 10h43 | Tamanho do texto: A- A+

ARTIGO

Corredor cênico mato-grossense

Teatro Faces, Grupo de Teatro Tibanaré, Cia Pessoal, são alguns cases de sucesso do corredor cênico de Mato Grosso

NAINE TERENA

Sobreviventes, conscientes, criativos. Assim são os grupos cênicos de Mato Grosso. E em tempos de economia criativa, essa turma tem muito a contar, para aqueles que estão interessados no caminho das pedras (mas gratificante), que é o corredor das artes cênicas mato-grossenses, que inclusive, já existia antes mesmo da discussão do termo economia criativa e seu estabelecimento como um dos caminhos para os fazeres criativos e sua sustentabilidade.

Economia criativa é um conceito em processo de afirmação. De forma geral é compreendida como as atividades de mercados advindas dos processos criativos, criando produtos e serviços e por conseqüência, gerando valor econômico. E a questão que se coloca quando se fala em economia criativa é: como gerar renda através do fazer cultural?

Segundo Howkins (2001), se essas atividades forem bem organizadas com preparo de competências e habilidades podem gerar empregos, riquezas e ambiente favorável para o negócio. Da teoria a prática, leia os relatos abaixo e faça suas reflexões.

Teatro Faces - Primavera do Leste - MT

Respeito à profissão, crescimento Artístico, administrativo e carteira assinada é a máxima do teatro no interior

Representando o interior de Mato Grosso neste artigo, eis que surge o Teatro Faces, de Primavera do Leste, com muitos desafios. O primeiro deles era manter-se vivo. E para manter-se ativo, era necessário crescimento. Esse crescimento partiu da pergunta e do problema enfrentado pela maioria dos Grupos do interior do estado: Como resolver o êxodo de atores quando esses encerram o ensino médio? Wanderson Lana, diretor do Grupo Faces, frisa que essa preocupação se dava principalmente por que a força do teatro no interior se dava com a forte presença de jovens atores de até 18 anos e que após essa idade mudavam-se da cidade para ingressar em um curso superior, ou simplesmente, para trabalhar em outra área, visto que os ganhos oriundos do Teatro em Mato Grosso torna impossível a permanência apenas nessa área.

"Então resolvi montar uma Escola de Teatro e fazer um acordo com a Prefeitura Municipal; ao mesmo tempo fomos premiados com o Projeto Pontos de Cultura. Foram contratados, primeiramente 06 atores que dividiam suas 40 horas em atividades com Teatro Faces e em atividades como instrutores de Teatro, pensando na base que garantiria a manutenção do projeto", conta Lana.

As conquistas do Teatro Faces levaram público para as apresentações. Em pouco mais de 03 anos de fundação já lotavam o teatro da própria cidade. "Para, nós, conquistar o respeito e o carinho dos primaverenses era incrível. No ano seguinte estávamos trabalhando em mais de 10 pontos diferentes da cidade e, o mais incrível, conseguimos a primeira graduação na área de Artes Cênicas de Mato Grosso: Licenciatura em Teatro pela UnB (Universidade de Brasília), que esse ano forma os primeiros alunos" explica Wanderson.

Hoje o Teatro Faces possui 08 membros, todos com carteira de trabalho assinada como atores e com salário mensal. Mantém uma base imediata chamada Faces Jovens, formado por oito jovens, sendo que cinco deles, contam com bolsa financeira para poderem continuar seus estudos dentro do universo do Teatro. E não para por aí. O Faces mantém ainda, uma Escola de Teatro que também é Ponto de Cultura (Ponto Cenpro Faces de Cultura) e atende 300 alunos/atores, sendo financiada pela Prefeitura Municipal de Primavera do Leste.

Foi contemplado com os Prêmios Miryam Muniz para circulação nacional e a seleção para Circulação no projeto Amazônia das Artes pelo SESC. Os estudos de Teatro para Infância e Juventude já foram difundidos em várias cidades de Mato Grosso.

O que se pode perguntar diante de tantas iniciativas bem sucedidas é: qual o segredo do sucesso?

O segredo, segundo Wanderson Lana, talvez tenha sido pensar coletivamente. "Tive que deixar meus anseios pessoais para construir uma estrutura democrática não apenas para os que faziam parte, mas também para os que estariam por vir. Contei com a sorte de encontrar pessoas incríveis nesse processo que são os atores que formam o Teatro Faces. Nós tivemos que aprender a trabalhar administrativamente e entender que nossa profissão sofre de burocracias ainda maiores que outras profissões. E, principalmente, administradores, prefeitos com grande visão de futuro que entendiam o impacto de ações culturais e valorização dos profissionais da área".

O pensamento coletivo do grupo ultrapassou os muros da sede e alcançou a população e os empresários de Primavera do Leste. O Teatro Faces também esteve em Portugal realizando um intercâmbio cênico. Da caminhada, Lana relembra apresentações de espetáculos como Balé número 16, A Fábrica de Brincadeiras, O menino e o céu e Cabaré; os projetos do SESC, que foram cruciais para que fossem inseridos no mercado do Teatro em Mato Grosso.

Lana encerra sua entrevista com palavras de esperança: "Queria que todos soubessem que é possível. Temos nove anos e uma estrutura que nos orgulhamos muito e que nos trouxe grandes amigos e parceiros. Mas não posso negar que às vezes pareceu impossível, que estávamos nadando contra a corrente sem possibilidade de margem ou de uma bóia salva-vidas. Hoje as dificuldades não diminuíram, os processos políticos atingem o teatro como atinge todas as áreas. Pensamos ano por ano, e a preocupação com a base e a valorização da profissão ator é nosso principal segredo", finaliza ele.

Grupo de Teatro Tibanaré

"O dinheiro diminui a angustia do artista, sabendo que no final do mês vai receber um valor Y. Isso possibilita entrar na sala de criação, focado e acreditando na sua ação. Tranqüiliza a vida social, pessoal, acredite, o artista tem família e deseja viver de forma respeitosa".

Com oito anos de existência, o Tibanaré tem no teatro a sua fonte de renda. Jefferson Jarcem, diretor do grupo, salienta: “resistimos com os nossos repertórios e oficinas cênicas que circulam por todo Brasil”.

As falas de Jarcem traduzem muito bem um dos itens que compõe o fazer criativo: a procura constante de novas fórmulas para se viver da arte. Em suma, ser criativo. Ele destaca também que o mercado cultural sempre esta em processo de mudanças, porém o Tibanaré busca criar um sistema de continuidade e isso contribui com alto estima de toda a equipe.

A renda do grupo é obtida através de dois setores: os espetáculos e capacitação que é oferecida pelo grupo por todo o país. Só nos últimos três anos, foi contemplado com pelo menos 5 editais em âmbito local e nacional, como o Prêmio Mirian Munys de Teatro, o Edital de Circulação do Banco do Amazonas e recentemente dos Correios. O segredo?

O Tibanaré mantém um núcleo muito bem organizado que conta com a capacitação de artistas iniciantes e equipe de produção e captação. Mantendo esse modelo de atuação no mercado, o grupo consegue discernir as funções e atuar forma organizada. O quadro de produção mapeia editais e oportunidades, escreve projetos e elabora os orçamentos. Para o núcleo artístico e de criação, cabe a missão de criar, compor pesquisar e apresentar espetáculos de qualidade.

O Grupo investe também em elementos de cena, figurinos, maquiagem e comunicação. Sempre que possível buscam profissionais de cada setor para dar um toque mais profissional nas produções.

Em termos de comunicação, o grupo investe nos kit´s de divugação e brindes. Já foram produzidas camisetas, marca-páginas, folders e felipetas, zines e o corpo-a-corpo com a mídia espontânea.

Com relação ao fazer teatral em si, o Tibanaré caminhou em tantas práticas teatrais, que ao passar do tempo foi se alinhando ao palhaço, ator-dançarino, ocupações de rua, treinamentos de ator e entre outras fontes que provocam para a criação própria, sem perder a linha que se desenhou pela experiência coletiva.

"Nascemos e renascemos a cada encontro, reconstruímos como a vida e isso revigora o trabalho de criação, madurecendo sempre as nossas práticas e teorias de grupo. As experiências estão inseridas no treinamento diário de grupo e nos encontros com outros artistas que estão inseridos nesta pratica. Além das pesquisas com a cultura popular de Mato Grosso, o grupo 'bebe' das fontes de vários mestres, entre eles estão Eugenio Barba, Jerzy Grotowski e Augusto Boal" conta Jefferson.

Os intercâmbios constantes contribuíram para estreitar relações com mestre Eugenio Barba (Odin Teatret, Dinamarca), Ricardo Puccetti (Lume de Teatro, São Paulo), Luciana Martuchelli, (Cia. Yinspiração Poéticas Contemporâneas, Brasília) e João Artigos (Teatro Anônimo, Rio de Janeiro). "Estes encontros além de alimentar novos pensamentos de fazer arte, contribuem a clarear o caminho que o grupo Tibanaré vem desenhando", ressalta o diretor do Grupo.

Jefferson Jarcem explica que houve o intercâmbio com vários profissionais do mundo, porém o maior fortalecimento estético, da pratica e teoria foi adquirido a partir das experimentações que compuseram para ações em projetos empresariais, sociais e educacionais. "Tudo aquilo que estávamos consumindo na sala de treinamentos e de jogos, as capacitações, encontros estavam se desenhando nestas experimentações que ao final viravam espetáculos" narra Jarcem.

Um exemplo dos resultados obtidos a partir desses treinamentos são as montagens Andarilhos das Estrelas que saiu de experimentações de Sustentabilidade Ambiental e Fiu Fiu nasceu depois de provocações de Eugenio Barba e o Lambadão Cuiabano que faz parte do repertório musical das famílias dos membros do Grupo. Jarcem enfatiza que qualquer lugar pode ofertar inspiração.

Cia Pessoal de Teatro

"Nós nunca tivemos móveis em casa. Investimos tudo em capacitação, intercâmbios, articulações".

Quando chegou a Cuiabá em 2005, a Cia. Pessoal de Teatro, até então formada por Tatiana Horevicht e Juliana Capilé, trouxe na bagagem uma história que teve início em 2001 no Estado de Minas Gerais. Atualmente a formação conta com Tatiana e Juliana bacharéis em direção teatral (UFOP/MG) e a atriz Daniela Leite, que é graduada em filosofia (UFMT/MT). Esse trio é o tripé criativo e de produção do grupo. Mestrandas em Estudos de Cultura Contemporânea – ECCO na UFMT (Cuiabá – MT), desenvolvem pesquisas individuais em dramaturgia, espaço cênico e corpo do ator, base teórica e prática da produção do grupo, que tem como identidade o trabalho contemporâneo, de pesquisa e autoral.

A trajetória da Cia é de tirar o fôlego e apresenta um extenso currículo. Além de ser constituída como Associação sem fins lucrativos, voltada para a arte, cultura e educação, suas integrantes são empreendedoras individuais e dividem-se no trabalho de produção e elaboração dos projetos artísticos e das ações de intercâmbio e formação.

Com treze anos de formação e trabalho contínuo a Cia. Pessoal de Teatro tem sido referencia no teatro contemporâneo mato-grossense, desenvolvendo além das produções cênicas, oficinas, cursos e workshops de formação em atuação e direção. Para o grupo, o teatro é acima de tudo “a arte do encontro” e seguindo esta máxima se dedicam em fortalecer e criar novas alianças e intercâmbios nacionais e internacionais. A busca por uma formação de excelência, através de cursos, oficinas e residências também tem sido foco das integrantes da Cia. Pessoal de Teatro, que não medem esforços para participarem das principais formações em teatro contemporâneo mundial, sempre procurando a diversificação do aprendizado. Unindo a vontade de intercambiar e a prática de formação, criaram em 2009 o Núcleo de Pesquisas Teatrais – Encontros Possíveis um projeto de formação, pesquisa e intercâmbio de teatro contemporâneo, desenvolvido através de pesquisa continuada e com um encontro a cada ano. Desde 2012 esta é uma ação internacional com a presença do grupo Odin Teatret (Dinamarca), de Eugenio Barba, que a Cia. Pessoal de Teatro mantém proximidade desde 2011 quando estiveram na sede do grupo para uma festival. O Núcleo de Pesquisas Teatrais já contou com parcerias da Secretaria Municipal de Cultura de Cuiabá, Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso, SESC Mato Grosso e SESI Mato Grosso e FUNARTE. Em 2014 na sua 6ª Edição, contam com a parceria do Itaú Rumos.

O fato do Estado não ter cursos de formação em artes cênicas é uma preocupação do grupo, que acredita que o cenário teatral mato-grossense tem muito potencial e que uma graduação em artes cênicas favoreceria o surgimento de novos artistas e o fortalecimento dos grupos que já atuam. Por isso atuam junto a UFMT para a abertura do curso de graduação de Artes da Cena, além de incentivar e torcer por toda iniciativa que enriqueça e aumente o cabedal cênico no Estado.

A renda do grupo vem principalmente de oficinas e cursos prestados, de apresentações dos espetáculos e de editais de cultura. O grupo se divide na criação e produção das ações, sejam elas: inscrever em um edital, criar um novo espetáculo ou produzir o encontro anual do Núcleo de Pesquisas Teatrais. Apesar de ter seus altos e baixos, como todo grupo ou artista que trabalhe as artes cênicas no Brasil, a Cia. Pessoal de Teatro em 2014 está com a agenda apertada. Além da participação no Palco Giratório – Circuito Nacional irão estender a ação do Núcleo de Pesquisa para o interior do Estado, criando assim três etapas. Estão com um novo espetáculo-experimento e planos para mais duas novas montagens.

A Cia Pessoal de Teatro possui uma sede onde realiza seus ensaios e concentra sua produção, e pretende, em breve, transformar sua sede em mais um espaço compartilhado no Estado, promovendo assim encontros de grupos e trocas de experiências.

Referências

HOWKINS, John. The Creative Economy: How People Make Money From Ideas. England: Penguin Books, 2001
UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT - UNCTAD. Creative Economy Report 2008. Disponível em: <http://www.unctad.org/en/docs/ditc20082cer_en.pdf>.

Opinião

Newsletter
Preencha o formulário abaixo para receber nossos boletins: