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Quarta, 16 de julho de 2014, 17h12 | Tamanho do texto: A- A+

Personagens de uma época que já não existe


Por Ailton Segura

Que eles se recordem, são os últimos moradores tradicionais da rua 24 de outubro. Moram ali desde que o cuiabano que vinha da zona rural fazia sua última parada para lavar os pés em frente ao quartel do 44º Batalhão de Infantaria Motorizada. Era hábito tirar os sapatos no começo do caminho e andar descalço na poeira ou barro da estrada. O lugar ficou conhecido como Lavapés e, com a urbanização, deu nome ao bairro. Deodato nasceu ali, onde a cidade terminava, há 68 anos. Natil, alguns anos mais velha, nasceu na Passagem da Conceição e veio antes para estudar magistério. Os dois são professores primários aposentados e revelam uma história de uma Cuiabá que se perdeu no tempo.

Lenine Martins/Secom-MT
Nossa gente, nossa história
Nossa gente, nossa história

A casa em que cresceram já não existe mais. Moram ao lado. No local há um estacionamento. Durante os dias, o professor Deodato Aquino da Silva fica sentado em uma cadeira na calçada e se distrai vendo o dia passar. Também passam ex-alunos das escolas Gustavo Kullmann e da Ezequiel Pompeo Ribeiro de Siqueira, estabelecimentos em que ele lecionou na sua vida de professor. Além disso, passam muitos conhecidos, alguns que ele não reconhece mais. Dos personagens que deram nome às escolas, Gustavo Kullmann ele não conheceu pessoalmente. Mas o professor Ezequiel habita o imaginário de seo Deodato. Era um excêntrico professor que andava de terno e de chinelos, sempre acompanhado de uma dezena de cachorros da rua. “Quando se sentava numa mesa de bar, pedia para servirem primeiro os cachorros”, relata.

As conversas são poucas, mas as muitas lembranças continuam vivas. Pedagogo com pós-graduação em Didática Geral, seo Deodato fazia questão de ir além do ensino das letras: “Grande parte dos alunos eram filhos de pais analfabetos e não cultivavam nenhum hábito de higiene. Eu insistia com eles, mostrava a importância do banho e da troca diária de roupa”, relata. “Eu fazia o plano de aula, mas se aparecia um problema para resolver com algum aluno eu não tinha dúvida, procurava encontrar a solução”, relata

Lenine Martins/Secom-MT
Nossa gente, nossa história
Nossa gente, nossa história

Seu maior orgulho é nunca ter faltado a uma aula no tempo em que foi professor. “Eu sempre fiz questão que os alunos me entendessem. Quando eles não assimilavam o que eu dizia, eu mudava o modo de ensinar até que o conteúdo fosse absorvido”, conta.

A irmã Maria Natividade da Silva, conhecida como Dona Natil, também foi uma professora assídua. No tempo que dava aula no Pari, saía de casa às 6 horas para chegar às 7 horas e ver os alunos correrem ao seu encontro com as mãos postas para pedir a benção. A caminhada era longa. Mesmo assim, atraso só em dia de chuva. “Aí a hora que chegasse era a hora”, revela.

Segundo dona Natil, a vida não era fácil. Para chegar no Colégio Nilo Póvoas, onde estudava, ela tinha que descer à pé até a Prainha, enfrentar a escadaria do Morro da Luz, assistir aula e voltar para casa. Foi o pai que conseguiu para ela o primeiro emprego de professora. Ele recebia constantemente o então prefeito Vicente Vuolo para pescar e caçar passarinho na praia do Pacheco, onde tinha uma chácara. Um dia o pai comentou com Vuolo que tinha uma filha formada no magistério. Vuolo então conseguiu para ela uma vaga na Escola Municipal Alexandre Addor, no Pari.

Atualmente Natil auxilia a nora na Bricolage, uma loja que montou em sua casa e que resgata o trabalho artesanal em tecido, pintura e cerâmica, encantando-se ao mostrar cada peça e sua utilidade. Lamenta não haver mais as conversas de fim de tarde na calçada, coisas do tempo em que os moradores ficavam esperando a hora de dormir ouvindo rádio, hábito cuiabano que há muito tempo deixou de existir.