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Sexta, 18 de julho de 2014, 15h18 | Tamanho do texto: A- A+

Paixão pela literatura


CAROLINE LANHI

  • Lenine Martins/Secom-MT
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O que faz o Papai Noel quando não está às voltas com o Natal? Muita coisa! Conta histórias, cria rodas de leituras, monta bibliotecas, oferece oficinas e mostras de cinema em comunidades rurais. Pelo menos é esta a rotina de Clóvis Matos, 59, também conhecido como Papai Noel. E não é somente pela barba longa e branca que Clóvis leva a fama de bom velhinho. Ele realmente exerce a função durante todo o mês de dezembro, desde 2005. Nos outros 11 meses do ano, quando não está trabalhando na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde é servidor, dedica-se a despertar em crianças, jovens e adultos o gosto pela literatura e pelo cinema. 

 

No mesmo ano que adotou o uniforme vermelho e branco, Clóvis – que também é historiador e produtor cultural – iniciou o projeto “Inclusão Literária” para levar livros a quem quase não tem acesso a eles e, com isso, estimular a leitura. Não importa onde. Cidade ou zona rural, empresas ou espaços públicos, qualquer lugar é lugar. Para isso ele conta com uma parceira experiente, a Furiosa, uma caminhonete F 75, verde oliva e cheia de livros que funciona como uma biblioteca itinerante. Basta estacioná-la, abrir a carroceria e aguardar os leitores de todas as idades.

 

  

Mais do que transportar os livros para lá e para cá o “Papai Noel” cria pequenas bibliotecas chamadas Livro no Ponto. São como aquelas sapateiras, mas em vez de sapatos recebem livros. Boa parte das bibliotecas foi instalada em comunidades rurais, de preferência em locais públicos como restaurantes, supermercados e associações. Todos os livros são resultado de doações ou de compras feitas pelo próprio produtor. Clóvis não vê problema em não devolver o livro, mas se devolver melhor, pois ele pode ser lido por outra pessoa. A ideia é fazer o livro circular! 

  

Clóvis Matos/Arquivo pessoal
Clóvis Matos em seus projetos de inclusão literária
Clóvis em seus projetos de inclusão literária cria o espaço de leitura principalmente nas comunidades rurais

O projeto é realizado em parceria com o produtor Epaminondas de Carvalho e oferece ainda oficinas de produção de vídeo e mostras de cinema. Varginha, zona rural próxima a Santo Antônio de Leverger, foi a primeira comunidade a receber o projeto. “Tinha umas 300 pessoas na quadra de esportes da escola no dia de lançamento da biblioteca”, relembra o historiador que já nem sabe quantas unidades montou – “mais de 20”. Atuante na região do Pantanal, Clóvis criou em Barão de Melgaço (113 km ao sul de Cuiabá) uma base que serve de apoio para as ações que realiza nas redondezas. 

 

A ideia do Inclusão Literária começou a ganhar forma quando Clóvis foi trabalhar em uma livraria de um shopping, em 2003. Depois de criar um espaço de leitura dentro da loja, percebeu que muita gente ia à livraria apenas para ler, sem comprar. Alguns devoraram um livro em um fim de semana. Clóvis percebeu que, além da dificuldade econômica, muita gente não lê porque não tem estímulo. Dois anos depois, lá estava o produtor cultural com a Furiosa na rua.

  

Em 2013 o projeto chegou à localidade de João Carro, próxima a Chapada dos Guimarães, e outras comunidades nas cercanias. Dessa vez houve também palestras sobre saúde e cidadania. Apesar das dificuldades de acesso, o resultado não poderia ser melhor, garante Clóvis. A Associação de Mulheres de João Carro recebeu uma biblioteca e as participantes produziram um filme sobre o trabalho desenvolvido por elas. A garotada também colocou a mão na massa e produziu “Bullying: casos da vida real”, disponível no You Tube. Além disso, outra biblioteca foi montada em um restaurante local.

  

Outro destino é o distrito de Bom Jardim, que pertence a Nobres (146 km ao norte da Capital), com um diferencial: agora eles contam com mais um veículo, uma Kombi.  “A minha vontade é colocar o Inclusão Literária na estrada, para o estado inteiro, como antigamente quando eu ia de ônibus, caminhão, Kombi”, lembra Clóvis que, no início da década de 80, viajava com Epaminondas pelo interior de Mato Grosso, com um projetor 16 mm para fazer mostra de cinema. Nem as duras regras impostas pela ditadura militar impediram o jovem historiador de realizar uma mostra de cinema soviético. “Quase fomos presos, o material ficou detido na alfândega e prestamos depoimento na Polícia Federal”, recorda.

  

Clóvis Matos/Arquivo pessoal
Clóvis Matos em seus projetos de inclusão literária e de Natal
Projeto oferece ainda oficinas de produção de vídeo e mostras de cinema


De produtor cultural a Bom Velhinho - É quase impossível olhar para Clóvis Matos e não lembrar do Papai Noel. Quando trabalhava na livraria, o historiador era sempre convidado pelo setor de marketing do shopping para exercer a doce e dura tarefa de ser o Bom Velhinho. Foram tantos pedidos que, em 2005, ele resolveu aceitar o desafio e não parou mais e nem pretende desistir tão cedo. “Enquanto tiver força para trabalhar, eu vou fazer”.

  

A função exige paciência e disposição, afinal não é fácil aguentar os puxões na barba para saber se ela é “verdadeira”, as birras de algumas crianças e as horas diárias posando para fotógrafos. Mas as boas histórias e demonstrações de carinho superam qualquer dissabor, garante Clóvis. São tantos sonhos e pedidos que ele pretende escrever um livro. E um pedido especial não deve ficar de fora, o de uma garotinha que pediu ao Papai Noel que trouxesse para ela uma escada para que pudesse chegar à lua e pegar uma estrela.

  

Em oito Natais Clóvis viu seu público crescer e mudar. Hoje, além de crianças, recebe na sua “casa de Papai Noel” muitos adolescentes – aqueles que na infância adoravam posar ao lado do bom velhinho – e idosos. “Esse público tem aumentado gradativamente, às vezes eles vão lá apenas para bater papo”, conta. A única coisa que não muda é a fama de Papai Noel. “Mesmo que eu tire a barba, acabo sendo Papai Noel o ano inteiro, não tem jeito!”.