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Sábado, 02 de agosto de 2014, 14h47 | Tamanho do texto: A- A+

O verdadeiro ícone do Rasqueado Cuiabano


Redação / Secom-MT

Por João Bosquo

Lenine Martins/Secom-MT
Bolinha, Sax Cuiabano
Bolinha, Sax Cuiabano

“João Batista de Jesus é o nome mais bonito” quem afirma é o titular, proprietário do nome, conhecido também como Mestre Bolinha, que solta uma sonora gargalhada ao dizer isso, para depois completar “João Batista Jesus da Silva. Eu nasci no dia da alegria, às 8 horas da noite, quando levantavam o mastro na casa de Dona Maria de Ferraz”. Era festa de São João, uma das mais tradicionais da antiga Rua da Fé, atual Comandante Costa.

A música está na raiz, ou mais modernamente no ‘gene’. Filho do lendário Mestre Albertino, músico primeiro sargento do antigo 16 BC, formador de bandas e descobridor de talentos, além de compositor e de Dona Enedina Fernandes da Silva. Bolinha é herdeiro dessa cepa e hoje, aos 74 anos, pode-se ser considerado um dos maiores saxofonistas mato-grossenses e também faz parte da história da música regional.

O primeiro contato foi com a percussão, com o pai, mas depois foi estudar na antiga Escola Agrícola de São Vicente, atual Centro Federal de Educação Tecnológica de São Vicente (Cefet), porque o pai não ganhava muito como sargento do Exército. Pois bem, perto da reforma, o pai Albertino começou a trabalhar na Escola e formou a primeira banda de música. Nessa primeira banda o jovem Bolinha começa aprender a tocar o sax alto.

O sax alto teve, porém, uma temporada curta. No dia que Bolinha viu Ivonildo Gomes de Oliveira, o mestre China tocando sax tenor foi amor a primeira vista. “Fiquei louco ao ouvir o sax de China”, que para ele era de verdade um mestre. Tocava no Bar Brasil, estabelecimento que ficava na Barão de Melgaço e de tanto ‘perseguir’ ele decidiu a ensinar a nova embocadura e seus macetes para executar um sax tenor aveludado. O respeito por Mestre China é tanto que Bolinha faz igual até os dias atuais.

O pai, Mestre Albertino, após se aposentar do quartel, torna-se servidor da Escola Técnica Federal de Mato Grosso, contratado pelo então diretor, Cel. Octahyde Jorge da Silva. Bolinha começa também sua carreira de músico e torna-se sucessor do pai. O critério foi: “Filho de peixe, peixinho é” e se torna regente da banda de música. Com distinção, conta que a banda da Escola Técnica chegou a ter uma formação de 65 figuras, jamais vista. A prova está no retrato na parede da casa, plantada em um lote de mais de 1000 metros quadrados no bairro do Ribeirão da Ponte, de herança paterna e na qual convive com a esposa e nomeada anjo da guarda Santina Silva.
 

 

Lenine Martins/Secom-MT
Bolinha, Sax Cuiabano
Bolinha, Sax Cuiabano

Antes do casamento, nos anos 80, Bolinha ajudou a escrever a história da discografia cuiabana. Sax tenor da banda “Jacildo e Seus Rapazes”, participa de um dos discos mais cultuados do rock-roll local, o LP “Lenha, Brasa e Bronca”. A aventura de viajar para São Paulo, praticamente sem dinheiro, numa velha Kombi, que patina nos atoleiros e funde o motor no meio da viagem. Ao entrar nos estúdios um novo problema. A Ordem dos Músicos do Brasil bota banca e cobra a carteira de músicos cuiabanos que nem calculava que existia tal instituição. A exigência quase pôs fim ao sonho de gravar o primeiro (e único) disco da banda. A saída foi gravar de madrugada, longe dos ‘ouvidos’ dos fiscais da O.M.B. Depois de integrar a “Jacildo e Seus Rapazes”, participou de outra banda de sucesso “Los Bambinos” que animava os bailes do Grêmio Antônio João.

Depois de 35 anos de serviço, se aposenta como mestre da Banda de Música da Escola Técnica. E passa a participar mais ativamente do movimento musical regional, sempre acompanhando os cantores e compositores da terra. Vera & Zuleika vão cantar no “Som Brasil”, de Lima Duarte, na Rede Globo, e levam Bolinha para acompanhar. Participa da Rua do Rasqueado e nesse processo de retomada do rasqueado, a partir dos anos 80.

O rasqueado cuiabano, segundo nos conta o historiador e musicista Milton Pereira de Pinho, o Guapo, em seu livro “Remedeia co que tem”, tem suas origens após o final da guerra da Triplice Aliança e o termo “rasqueado” está ligado a expressão “rasguear la guitarra”, até se firmar com a legítima musical regional, tendo como precursores entre outros Banda do Mestre Inácio, Conjunto Serenata, Zulmira Canavarros, Dunga Rodrigues, Nardinho (acordeonista), Benjamim Ribeiro, Conjunto Cinco Morenos. Também fizeram história os compositores Honório Simaringo, José Agnello, Mestre Albertino, Vicente dos Santos, Tote Garcia, Luíz Cândido, Luíz Duarte, Mestre Luíz Marinho, Zelito Bicudo, Odare Vaz Curvo, Nilson Costantino, Namy Ourives, Dante Miráglia, Rabelo Leite, Gigo, Chilo e Mestre Bolinha. Herdeiro direto dessa tradição e seu mais legítimo representante. O ícone do Rasqueado Cuiabano. Junto com Pescuma e Moisés Martins integra a banda “Ventrecha de Pacu” e grava os CD’s Sentimento Cuiabano I e II, aos quais empresta o colorido de seus sopros.

Encerrado o ciclo de Ventrecha de Pacu, Bolinha volta aos estúdios e grava o “Bolinha e seu Sax Cuiabano”, com músicas de Metre Albertino (Paraíso de Dona Sinhá, Bugrinho na Farra, Lambari na Cuia e Meu Pedaço), Pititi-Patatá (Honório Simaringo), Luiz Fonseca (Sonho de Esmael); segue-se o CD “Tributo a Mestre Albertino”, depois “Bolinha Recordando o Passado”, no qual resgata trabalhos como “A Turma de Luiz Marinho”, grava boleros e choros. O último trabalho é uma referência os 73 anos, com doze faixas, com destaque para “Rasqueado em homenagem ao Mestre Bolinha”.

 

  • Lenine Martins/Secom-MT
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