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Terça, 30 de setembro de 2014, 16h52 | Tamanho do texto: A- A+

Apaixonada pelas raízes cuiabanas


Caroline Lanhi/Redação

  • Josi Pettengill/Secom-MT
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Com um sorriso no rosto e um ar sereno, Vera Capilé abre os portões de sua casa em um sítio próximo a Cuiabá. Os cachorros a cercam querendo saber quem são as visitas logo pela manhã. A varanda comprida, com uma mesa para muitas pessoas, já mostra que a casa está sempre aberta para os amigos, amantes de uma música de raiz ou de um pedaço de natureza – entre os poucos que ainda restam na Capital.

Vera logo nos oferece cadeiras de fio, que não podem faltar na casa de um bom cuiabano, ainda que de coração. Há natureza por todos os lados, a começar pela estrada de terra estreita que nasce às margens da rodovia Emanuel Pinheiro (MT-251) e segue cerrado adentro. Mesmo com os condomínios residenciais avançando sobre a região, a chácara São João garante uma temperatura mais agradável do que as registradas em pleno mês de setembro.

A anfitriã nos aguardava em seu melhor estilo, ao natural: vestido estampado e solto, chinelo de borracha, um leve batom nos lábios e, na cabeça, uma faixa de crochê colorida para segurar os cachos. O cabelo encaracolado e grisalho, além de ser sua marca, é sinal de que boas histórias não faltam para esta cantora, compositora, psicóloga e, agora, escritora que nasceu em Dourados, no Mato Grosso do Sul, mas construiu sua história e carreira em terras cuiabanas.

Vera tinha apenas 11 anos quando se mudou para Cuiabá, já que o pai, seo Sinjão Capilé, havia sido enviado à cidade para assumir a presidência da Comissão de Planejamento da Produção (CPP) durante o governo Fernando Correa da Costa. Começava aí uma relação de amor entre Vera e a cultura cuiabana. “O que me encantou muito desde que cheguei foi essa cultura colorida, o folclore. Nunca tinha visto ou ouvido uma bandinha e o pessoal atrás com a bandeira, pedindo esmola. Era festa de São Benedito. Eu corria atrás da bandinha depois da escola”, recorda.

A cultura, as cores, a natureza, o clima, tudo foi inspiração para a jovem cantora. Aos 15 anos ela já tinha um programa musical na rádio A Voz D’Oeste. Sempre foi estimulada pelos pais a cantar e nunca resistiu a um palco, ao contrário dos irmãos que, apesar de conhecerem muito sobre música, não tinham a coragem dela, revela. Mas quando chegou aos 19 anos, se viu frente a um dilema: ou se casava ou continuava nos palcos e nas ondas do rádio. Vera se casou.

Só voltou aos palcos mais de duas décadas depois, divorciada e com três filhos. Nesta nova fase retomou a faculdade de psicologia que estava trancada e os projetos musicais. O retorno aos palcos teve o apoio incondicional dos amigos, especialmente de Liu Arruda e Ivens Scaff. “Voltei a ser a Vera da adolescência”, com a diferença que voltou decidida a se profissionalizar, gravar CDs, realizar shows. Para isso foi preciso direcionar o trabalho, criar uma identidade. Foi então que o amor palas raízes da música cuiabana falou mais alto.

“Aos 50 anos minha vida voltou com tudo”, emociona-se ao lembrar que nessa idade ela ganhou o primeiro neto, o diploma de psicóloga e o primeiro CD. Para completar a felicidade, em 2004 foi selecionada para participar do projeto “Pixinguinha” e pode levar sua música para 8 cidades do país. Um ano depois Vera embarcava rumo a Paris para participar das comemorações do Ano do Brasil na França. Na bagagem, canções como “São Benedito Flor de Laranjeira”, “Chalana” e “Varanda Cuiabana”. “Os franceses ficaram loucos com aquele colorido todo, aquela música e eles tentando fazer como eu fazia”. No retorno ao Brasil, trouxe a certeza de que era preciso aprender ainda mais.


Natureza, netos e letras

O envolvimento dos franceses com a música mato-grossense surpreendeu a cantora e despertou nela o interesse pela composição. A chegada dos netos também foi inspiradora para o início de uma nova fase. “Neto é muito gostoso, te abre um novo canal de criatividade, a gente se solta”, tenta explicar com palavras, gestos e olhar. Três de suas composições entraram no terceiro e mais recente CD, lançado em 2011: Cheiro de mato, Filhote deste lugar e Cirandando.

A ligação de Vera com aquilo que há de mais natural, os frutos, as árvores, os animais, a terra, são recorrentes nas composições. E não poderia ser diferente para quem sobe ao palco de pés descalços para sentir a energia do chão e a vibração da música - quem já foi a algum show da cantora-psicóloga sabe que os sapatos não têm vez. Morar em apartamento? Nem pensar, descarta Vera. “Me sinto protegida em meio à natureza”. O que ela gosta mesmo é poder estar no mezanino de sua casa e ver os pássaros entrando pela janela.

É neste “refúgio” que a intérprete e compositora também se dedica ao seu mais novo projeto, um livro sobre a vida do pai intitulado “Mato Grosso a Mato Grosso”, já em processo de finalização. E não é a primeira vez que Vera expõe seu lado escritora. Por mais de 3 anos ela teve uma coluna no jornal Diário de Cuiabá chamada “Pelos córregos da vida”, onde publicava crônicas ligadas principalmente à ecologia, que futuramente também deve se transformar em um livro.

Definitivamente, rotina é algo que também não tem espaço na vida da artista-escritora. Ela tem no currículo participação em cinco filmes de produção local e ainda concilia seu lado artístico com a psicologia. Especialista em gerontologia, área do conhecimento que estuda envelhecimento humano, Vera garante que as atividades se completam. “Com a música a psicologia ganha leveza, tira o paciente do chão, faz com que ele fique mais solto e saia do núcleo da dor. Em contrapartida, a psicologia me ajuda a mexer com o imaginário das pessoas, muitos vão ao camarim para me dizer ‘Vera, você me fez viajar!’”.

Apesar de ainda não ter planos para um quarto disco, não é difícil encontrar Vera, acompanhada de seu amigo e músico de longa data Habel dy Anjos, de pés descalços pelos palcos de Cuiabá, especialmente em eventos ligados à promoção da cultura cuiabana, sua terra de coração.